Tens uma cabeça dentro do peito...
E eu também
Como faz, agora?
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domingo, 15 de julho de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
MEDO
E porque existem vários tipos de alma
E porque algumas são raras
E porque também algumas são encantadas
E porque algumas sorriem e se encaixam
E porque algumas têm corpos que materializam coisas boas
De se chegar perto e ficar por lá, beirando o tudo que ainda não foi
O tudo que ainda tem pra ser.
Que fala com olhos de passarinho
Alma que apaixona, que desperta um assombro dentro da gente
Alma de algodão-doce, com cheiro de chiclete, textura de avelã, aparência de arco íris
Tem alma que de tão luz parece estrela
Que cadentemente viaja pra dentro da gente
Sem a gente saber, sem a gente esperar, sem a gente deixar
Tem alma que de tão linda dá medo de tocar, de ferir, de machucar
De perder
De não mais enxergar...
Eu tive medo de assustar uma alma assim.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
"Pra não dizer que não falei das flores"
Dispepsia dissipada e eu não poderia finalizar 2011 sem falar do filme que o marcou, ou que me marcou perante o ano.
Na sala semi-iluminada, quem apertasse os olhos e diminuísse suas pupilas facilmente enxergaria a ansiedade em pessoa materializada numa das poltronas. Os pés batendo no chão, o joelho tremendo com o impacto cinético, a cabeça vazia, expectativa nenhuma. Só a curiosidade sem fim!
Quando as luzes do projetor começaram a piscar na superfície branca da tela, os olhos quase orbitaram de satisfação, mais alguns minutos passados os trailers e lá estava Almodóvar em novíssima versão, recriado como todo artista ao fim de uma nova obra.
Quando as luzes do projetor começaram a piscar na superfície branca da tela, os olhos quase orbitaram de satisfação, mais alguns minutos passados os trailers e lá estava Almodóvar em novíssima versão, recriado como todo artista ao fim de uma nova obra.
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| Capa do livro "Mygale" |
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| Cena do filme |
A inversão de papéis (mocinho vira vilão e vilão vira mocinho), diálogos escassos envoltos em mistério, ação lenta e densa, tempo não linear e as cores quentes (caracterítica própria de Amódovar), são algumas das que marcam A pele que habito. Com uma densidade psicológica e emocional espessa, a obra transborda suas problemáticas para o espectador colocando em cheque seus valores e julgamentos. Pontos de vista dividem-se, ora invertem-se, enquanto uma corrente magnética de sensações desconfortáveis e chocantes atinge o espectador através do corte que a percepção incide na fina película entre espaço e tempo, quadro e realidade.
O bom de um bom cinema é exatamente isso: nos direcionar para dentro da história, independente de nossa própria vontade, independente de nossa consciência. Expressões, planos, quadros, ritmos, diálogos, sons, fotografia, objetos e a relação entre todos esses elementos precisa estar em perfeita harmonia para nos capturar. Um simples detalhe e o filme ganha ou perde toda sua intensidade.
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| Uma das cenas iniciais do filme |
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| Obra de Louise Bourgeois |
Eu não poderia deixar de dedicar algumas linhas para mencionar a presença de Louise Bourgeois em A pele que habito, uma presença mínima, mas que a mim repercutiu tudo o que eu poderia esperar da trama. A presença de obras e de um livro sobre a escultora franco-americana no inicio do filme parece aleatória e quase imperceptível aos mais desapercebidos, mas conota toda a força psicológica conflitante que marca a narrativa, além de constituir uma menção direta ao título do livro em que se baseia o filme. Quem já ouviu falar de Bourgeois certamente já ouviu falar de suas aranhas gigantes. Pele, costura, conflitos emocionais, desejo, sexualidade, deformações físicas, mutilações, obscuridade e dualidade, são abordagens e aspectos do trabalho de Bourgeois que, tanto quanto a obra de Almodóvar, nos colocam poeticamente em contato com mundos obscuros, agitações internamente ignoradas, fragmentos desconfortantes que convivem conosco embaixo de uma epiderme neural que pouco habitamos.
Não temos escolha perante a arte, se aceitamos encontrá-la, intimamente permitimos que nossa vulnerabilidade venha a tona despertando sentimentos, emoções e pensamentos que pouco poderiam ser acionados sem o estímulo da obra. Almodóvar, certamente alcançou coeficientes altos de sensibilidade em A pele que habito, mostrando que é possível fazer drama com pouco estardalhaço, suspense sem grandes tensões sonoras e que terror também se faz com a mente, sem precisar desperdiçar golfadas desnecessárias de sangue.
Em A pele que habito as letras sobem anunciando o fim do filme e você continua sentado. Primeiro perplexo, depois indignado com o diretor que se despede despejando em você uma das cenas mais densas e indigestas do filme, uma dose cavalar para somar-se as outras que acumularam-se até aquele momento. Assim, dedico esse texto a minha amiga Paula Barros (MA) que assistiu ao filme comigo e que como eu, sensivelmente, não conseguiu conversar sobe ele.
Paulinha, esse é pra nós.
Nada de ruminações para 2012! Rsrsrsrs
Nada de ruminações para 2012! Rsrsrsrs
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
sábado, 17 de setembro de 2011
OCEANO POSSÍVEL
Embora ninguém percebesse era um dia emocionalmente difícil para ela. Mais um entre tantos que estavam seguindo aquela semana. Ela tentara consigo mesma compreender um pouco do que estava se passando, mas alguém dentro dela se recusava a traçar qualquer diálogo sobre o assunto. Tentou escrever sobre, mas o cérebro não lhe permitiu exprimir uma única linha. Havia um bloqueio intransponível que impedia o contato entre as suas sinapses e as emoções.
Ela conhecia a causa, mas não sabia explicar o porquê.
O tempo escapulia com os fios de gelo cortante que o vento frio soprava sobre seus cabelos. O corpo leve carregava há horas os passos chumbados de alguém que segue em frente com dificuldade. Ela não estava em casa e não sentia-se deslocada. Aquele era o espaço ideal pra suas fragmentações emocionais. Uma espécie de terapia.
Percorreu quadro a quadro, imagem por imagem. Tudo que chegava até sua retina diminuía aos poucos o fardo das pegadas. A confusão interna cedia lugar para inquietações universais, perspectivas diferentes, formas incomuns de enxergar o que ela, até aquele momento, visualizava por outro ângulo.
Conversas e risadas descontraídas com alguém que a acompanhava, hora ou outra interrompia a carga de seriedade dos seus pensamentos. Aquilo mais do que necessário, era essencial para pausar o fluxo da sensação amarga que a atingia como um pêndulo. Ainda que reconhecesse o quanto isso ajudava, ela carregava a culpa de saber que toda a universalidade até agora vista, não obstante pessoal, só a distanciava do momento em que ela, mesmo com dificuldade, deveria alcançar o cerne de sua aflição. O gosto acrimonioso impregnava seus sentidos em minutos entremeares quando num determinado instante de intervalo seus ouvidos captaram uma frase pronunciada ao longe:
“Há sempre um copo de mar para um homem navegar”.
O anuncio brotou de uma sonoridade distante, como se fora um presságio. Ela seguiu as ondas sonoras das palavras com movimentos lentos, a alma sedenta, mas pouco crédula. Alguém em algum lugar conseguira amortecer suas sensações ocres. Aquela frase exprimia tudo o que ela não sabia que precisava ouvir.
“Há sempre um copo de mar para um homem navegar”.
“Há sempre um copo de mar para um homem navegar”.
“Há sempre um copo de mar para um homem navegar”.
Aos poucos o som se tornava mais nítido e a frase repetia-se em canto constante. A voz era feminina, conseguira detectar com clareza.
Menos de um segundo depois e sua perspectiva opaca mirava a fonte de tais pronuncias. A audição se tornou sutilmente afetada enquanto sua pupila diminuía de tamanho para regar a visão com a maior quantidade de nitidez luminosa. As imagens perante seus olhos se movimentavam exibindo uma moça despida. Nua!
E antes que ela mesma se perguntasse o motivo, seus olhos neurais lhe responderam que aquela nudez representava a virgindade do corpo perante o mundo.
E antes que ela mesma se perguntasse o motivo, seus olhos neurais lhe responderam que aquela nudez representava a virgindade do corpo perante o mundo.
“Há sempre um copo de mar para um homem navegar”
Sim, embora seus olhos fossem mais vivos que seus ouvidos, ela ainda escutava o som e as palavras ondulavam seu estado emocional.
A moça nua enquadrada na tela mexia-se em um cenário simples e comum, exceto pela presença de baldes e bacias preenchendo o todo que a margeava. A moça estava sentada no chão e lentamente se molhava. Ela mesma se enxergava na moça e a moça era ela e ela era moça que se banhava com água pura. A água que vinha de vários recipientes...
Era uma água límpida. Água de panela, bacia, balde, corpo. Água de alma. Água de mar!
Água de quem se encontra na terra tão desconectada, tão farta e seca da areia, do pó fino impregnado n a pele rejeitosa, que mal consegue ver onde pisa. Água que lava o corpo de quem carrega nas vestes os resquícios da ventania, tempestuosa travessia de “daqui não sei mais...”. Água gelada e serena de quem sedenta se senta e não reconhece, mas com dificuldade percebe:
Há Um copo Para um Navegar
Sempre De mar Homem
Sara Ramo (Madri, Espanha, 1975)
Oceano Possível, 2002
Video digital, cor e som
Coleção: Galeria Fortes Vilaça
"Há sempre um copo de mar/ para um homem navegar" (Jorge de Lima). "Nestes versos, as palavras empregadas são do cotidiano, a rima é comum, e a sintaxe não poderia ser mais simples. Entretanto, são dois versos generosos para a imaginação" (Comentário de Raduan Nassar, Cadernos de Literatura Brasileira, nº2. São Paulo: Instituto Moreira Salles, p.24). Assim também sugere o trabalho de Sara Ramo: feito de objetos do cotidiano, num ambiente doméstico, e que, articulados pel artista, ganham uma densidade de extrema generosidade. Oceano Possível surge não só como uma constatação levemente melancólica dos desenganos desta nossa época pós-utópica, mas também como signo da descoberta de brechas dentro de dimensões prosaicas das experiências que habitam essa mesma época. Brechas nas quais é possível inserir pequenas transformaações, indicando um tempo presente pulsante, pronto para ser ativado.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Estou depositando aqui as sobras de palavras que restaram de um ímpeto de coragem.
Há tantas coisas que eu queria escrever aqui nesse espaço
Mas a insegurança me deixa sempre um abraço.
Saio para entrar em cena o vazio...
Um dia eu deixo de sufocar tudo e passo a dizer o tanto...
Um dia...
Quando o que eu disser sobre o todo
Tiver deixado de ser tão sobre mim.
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